Domingo, a dor evitável.
A Maria acordou e não tem nada para fazer. Decide começar por fazer pequenas tarefas na esperança simultânea de quando terminar ter o dia despachado e de se sentir melhor por dentro quando as completasse.
A Maria faz a cama de lavado, dá um jeito à cozinha, acende algumas velas, não lhe apetece aspirar, abre janelas para arejar a casa e olha para o telemóvel. Ninguém lhe disse nada. Não que estivesse à espera de algo ou alguém, mas recorda-se de quando era mais nova e o telefone estava permanentemente a tocar. Podiam ser as mensagens mais estúpidas do mundo, mas o toque de mensagens do Nokia 3210 estava intimamente ligado ao seu nível de sociabilidade e popularidade.
Por um lado gostava que o telemóvel tivesse tocado. Assim teria um convite para rejeitar. Nada a faria sentir melhor do que rejeitar algo. Mesmo que, no íntimo, estivesse a precisar de sair de casa, o papel do telemóvel já tinha sido cumprido: "Olá. Lembram-se de ti. Existes. Pronto!"
Não. O telemóvel não toca. Ninguém se lembra da Maria. Tirar a loiça da máquina, pôr roupa a secar, lavar os dentes, arrumar os champôs por cores, arrumar os livros. Ninguém se lembra da Maria. Arrumar as calças de ganga no armário, voltar a dobrar as camisolas. O telemóvel tocou.
Era um amigo a pedir um favor à Maria. Maria ficou irritada sem justificação. Um amigo lembrou-se dela por precisar. O que tem de mal? Tudo. Maria queria que fosse lembrada por ser uma boa companhia em vez de ser por ter uma garagem para por mobílias dos outros.
Sacudir a colcha do sofá. Sacudir os tapetes do quarto e da sala. Já não há mais nada para fazer. Maria toma um banho. Desta vez decide que vai demorar o tempo que for preciso. Não tem horários, afinal é domingo. Assim que entrou já estava cheia de pressa para sair para fazer nada.
Embrulhada na toalha, senta-se num cantinho do colchão e descomprime. "Estou com pressa de fazer o quê? É Domingo."
Maria sente-se pressionada para se servir da sua criatividade para continuar a inventar tarefas. Ir correr para a rua? Pôr uma música manhosa e fazer abdominais? Não. Desenhar? Ahah! Desenhar porquê? Organizar o computador? Apagar amigos do Facebook ou organizá-los por lista? Dá muito trabalho.
Maria vai tratar do almoço. Descongela dois bifes. Trata do arroz. Não tem fome. Deita-se no sofá e pede por tudo que seja capaz de adormecer. Já está.
Maria acorda e janta os dois bifes. Sente-se gorda. Maria liga a televisão e está a dar a Casa dos Segredos. Pode ser! O resto que está a dar nas Fox já viu.
Maria está triste porque amanhã é segunda. A verdade é que a segunda é sempre melhor que o suposto domingo.
Se anseia tanto pelo fim-de-semana, por que não fazer algo útil dele?
Maria pega no telemóvel e envia uma mensagem a uma amiga, combinou um almoço para amanhã.
Amanha não tem tempo.
Basicamente sinto-me assim o tempo todo..
(texto retirado de http://aspessoasquecoisocoiso.blogspot.com/)

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